Editora: Círculo de Leitores
Colecção: Romances completos de Eça de Queirós
N.º de páginas: 488
ISBN: 9724206645
Categoria: Clássico
Opinião:
O Crime do Padre foi o primeiro romance de Eça de Queirós. Fala-nos acerca de um amor proibido entre um Padre, Amaro Vieira e a jovem mais bonita de Leiria, Amélia, que cresceu rodeada de beatas e padres. E, utilizando este pano de fundo, o autor faz uma crítica voraz à igreja Católica e ao estilo de vida da burguesia portuguesa.
Eça critica algumas práticas religiosas do Catolicismo como o Celibato, a confissão, a excomunhão, o batismo em bebé, a ligação da igreja à política, a excessiva devoção aos santos, a ostentação das igrejas. Fala sobre a influência que o padres exercem nos devotos manipulando o pensamento e comportamento das pessoas através das ameaças de castigos de Deus ou com a promessa de um lugar certo no céu. O padre é visto perante os católicos como omnipotente, capaz de perdoar os pecados dos seus confessores através da penitência. No entanto, o próprio clero está constantemente pecado sem vontade de redenção. Vivem na ostentação, possuindo as suas próprias riquezas ou utilizando as oferendas dadas à igreja. Mantém relações extra-conjugais, quando fazem votos de celibato. Aproveitam-se das informações dadas em confissões.
Este livro mostra-nos uma sociedade hipócrita, que se diz cristã mas que na realidade a religião é praticada por convenção e para ser socialmente aceite pois um indivíduo só é considerado respeitável se for à missa, jejuar e se confessar, mesmo que tenha outras virtudes socialmente bem vistas. Os burgueses vivem na futilidade, na besbilhotice e ocupando a sua mente com coisas desinteressantes.
As personagens são muito diversificadas de forma a representar ideias específicas e, contrariamente ao que é habitual nas minhas leituras, gostei mais das personagens secundárias do que propriamente das principais, nomeadamente o Dr. Godinho, o João Eduardo e o abade Ferrão, talvez por serem as personagens que são capazes de pensar por si mesmas. Ganhei um certo rancor pelo padre Amaro, pela forma como ele seduz a Amélia, pelo seu egoísmo quando surgem as consequências deste romance e pela forma como ele continua a pensar e a viver no final da história.
Apesar de ser uma história bastante conhecida não sabia como acabava. Um final para mim inesperado e confesso que fiquei um pouco desiludida. Mas, depois de terminar o livro e reflectir, penso que o desenlace não podia ser de outra forma pela crítica final que acarreta.
Gostei muito de ler este livro e o que me agradou mais ao longo da leitura foi a forma como Eça utiliza a ironia ao longo da história. Penso que a escrita não precisa de apresentações, com as características típicas realistas e naturalistas que podemos encontrar em "Os Maias", apesar de ter uma leitura bastante mais fluida, talvez pela quantidade de diálogos existentes.
Li este livro em dois formatos, em livro e em ebook. Gostei bastante de ler em formato electrónico e achei mesmo que, por vezes, foi muito mais prático por poder transportar para fora de casa com mais facilidade e porque a edição que li é de capa dura. Não me fez diferença deixar de folhear as páginas e vou voltar a repetir a experiência.





