O projeto volta ao mundo com a literatura, onde procuro ler um livro de cada país do mundo, leva-me por vezes a leituras temáticas. Nos últimos meses li, de forma não intencional, três livros que falam sobre o colonialismo. Este é sem dúvida um assunto que me desperta atenção porque penso que a maneira como este tema é abordado na escola é feito de modo a vangloriar os feitos dos Portugueses, deixando um pouco de lado a perspetiva do povo colonizado.
O Primeiro que li foi o Luanda, Lisboa, Paraíso de Djamila Pereira de Almeida (2018) que, tal como o título indica, relata-nos as desventuras de Cartola e de seu filho Aquiles ao viajarem de Luanda a Lisboa durante a guerra civil de Angola num período pós-colonização. O objetivo desta viagem era a resolução do problema do calcanhar de Aquiles, deformado desde a nascença. No entanto, em vez de se depararem com a capital portuguesa sonhada por Cartola, pai e filho confrontam-se com a desilusão de uma vida difícil, sem dinheiro, sem saúde e sujeitos a condições miseráveis de trabalho. Vêem-se assim impossibilitados de regressarem à sua terra natal e de se juntarem novamente à sua família, mãe e irmã, acabando por se fixarem num bairro de lata em Almada, o Paraíso. Apesar de ser um livro pequeno, é um romance para ser lido lentamente pela dureza do tema e para que possamos apreciar a escrita da autora.
A leitura seguinte foi Crónicas de Uma travessia - A Época de Ai-Dik-Funam (1997), uma auto-biografia do autor timorense Luis Cardoso. Filho de um enfermeiro e curandeiro, passou parte da sua infância em peregrinações, alcançando locais mais isolados e tribos com línguas nativas diferentes. Ao atingir uma determinada idade, ao contrário da maioria das crianças timorenses, têm a possibilidade de estudar, primeiro numa escola missionária e posteriormente num liceu onde é educado segundo um modelo cristão e da Mocidade Portuguesa. Mais tarde dá-se o 25 de Abril e acaba por ganhar uma bolsa de estudos para Lisboa, poupando-o de presenciar diretamente a guerra civil e as invasão indonésia. Mais uma vez aqui, temos a luta de um povo pela sua independência. Não foi para mim um livro de leitura fácil e gostaria que alguns acontecimentos históricos estivessem um pouco mais desenvolvidos mas entendo que tenha sido escrito desta forma por se tratar das vivências do autor. Ao longo da narrativa é notório a influência da força cultural portuguesa mas em simultâneo conseguimos sentir o exotismo e misticismo Timorense.
Por fim, li Vasto Mar de Sargaços de Jean Rhys (1966). Peguei nesta obra por ser considerada uma prequela de Jane Eyre da Charlotte Brontë e deparei-me com um livro sobre o pós-colonialismo britânico. Fala-nos da história de Antoniette, a filha de um colono na Jamaica que, após a morte de seu pai, vê-se sozinha com sua mãe e o seu irmão mais novo numa altura em que a escravatura terminou e que são odiados pela maioria da população. A mãe acaba por se casar novamente com um britânico que mais tarde acaba por arranjar um casamento entre Antoniette e jovem inglês, Edward Rochester. Apesar de por vezes ter achado a escrita um pouco confusa, achei muito interessante a reconstrução da personagem da "louca do sótão" criada pela Charlotte Brontë. Antoniette passa por muitas instabilidades emocionais desde a infância, crescendo como uma "crioula branca" nascida num país de negros e que, de certa forma acaba por não pertencer a lado nenhum, nem à Jamaica nem a Inglaterra. Esta instabilidade, associada a um casamento sem amor leva a um grande desequilíbrio emocional de Antoniette, acabando por ser dominada pela loucura.
E vocês, já leram algum destes livros? Têm sugestão de algum livro que aborde esta temática?



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