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A última tragédia

   



   Para este ano tinha-me proposto dedicar mais ao meu projeto pessoal, viajar através dos livros, com o objetivo de conhecer escritores fora do âmbito da literatura mais comercial - literatura americana, inglesa e francesa - e explorar outras culturas. No instagram vi um projeto que se propõe ler literatura lusófona, sendo que em janeiro o país selecionado foi Guiné-Bissau. Andei a investigar, pois não é fácil encontrar autores desta nacionalidade e descobri que, na biblioteca que costumo ir habitualmente, tinham uma edição guineense de A Última Tragédia de Abdulai Sila. Não hesitei em requisitar pois este livro não está publicado cá em Portugal embora tenha sido traduzido para outras línguas.
  Aqui acompanhamos três personagens principais. Ndani, uma jovem que, quando nasceu, o curandeiro da sua terra pronunciou o azar dentro dela e uma vida plena de tragédias, sendo por isso discriminada pelo seu povo. Por essa razão, Ndani viaja para a capital, Bissau,  em busca de um recomeço como criada de homem branco. É através dela que conhecemos o modo de vida e forma de pensar dos portugueses que vivem nesta colónia. O Régulo Bsum Nanki, a pessoa mais importante de Quinhamel, um pensador que questiona a colonização. O professor, que aprendeu a ler e conhecer o cristianismo para que pudesse mais tarde pregar o evangelho em zonas mais rurais do país. Por essa razão é considerado um "assimilado".
   A ação de A última Tragédia desenrola-se numa Guiné-Bissau ainda sujeita ao colonialismo quando ainda era considerada território português. O autor conta a história sob o ponto de vista do colonizado, dando voz aos sentimentos de injustiça do domínio do "branco sobre um preto", à imposição de normas e crenças por parte do colonizador e à incoerência dos atos e palavras de que quer evangelizar e quem prega o cristianismo. O tom dado às personagens e a rebeldia inerente às suas ações não é mais que uma tentativa de libertação do povo Guineense.

"Essa coisa de uma pessoa ir mandar na terra de outras pessoas não me agrada, não estou de acordo. Então eu posso sair daqui e ir mandar no chão dos Bidjokos, sem mais nem menos? As pessoas podem ir para onde quiserem ir, podem viver em paz onde quiserem viver, mas agora ir para mandar nas pessoa que encontram lá, para explorar, como dizia o Magalhães, para cobrar impostos, castigar como fizeram com o Obem Ko, isso não pode ser. Eu estou e vou estar sempre contra este tipo de coisas."

Recomendo, foi uma leitura bastante interessante!

Sinopse:
A tragédia tem sempre duas caras. Uma, sinistra, para chorar, a outra, cómica, para rir até às lágrimas, pois "rir e chorar são filhos gémeos do pai Coração e da Boca".
A Última Tragédia não escapa a esta ambivalência. Tem também as suas caras tão próximas: a do colonizador convicto dos seus poderes e a do colonizado à procura dos seus direitos. Quando giram à volta da figura central, Ndani, que é suposto hospedar um azar, encarnam a estatura do Administrador imbuído da sua missão e armado do chicote "civilizador", a grandeza do Régulo agarrado a seu orgulho e provido de uma malícia desarmante; o ímpeto do Professor em ruptura com ilusões da sua adolescência e rearmado pela força de um amor juvenil.
Para além das relações complexas que tecem entre estes personagens, afirma-se uma outra figura, o estilo do romance, que faz ver as cores locais, sentir os cheiros da terra, até ouvir um sotaque tipicamente guineense graças a um judicioso e inovador apelo ao criolo.



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