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Misericórdia

    


    Peguei neste livro com grandes expectativas dada a quantidade de opiniões positivas por parte de algumas pessoas que sigo nas redes sociais e, de facto, fiquei rendida. É sem dúvida uma obra singular não fosse ela escrita a pedido da mãe de uma enorme escritora, Lídia Jorge, quando esta se encontrava internada numa instituição para idosos.

    Acompanhamos aqui os relatos sob a forma de diário do último ano de vida de Maria Alberta que se encontra num lar de idosos, o Hotel Paraíso. Através dela ganhamos uma perspectiva das realidades dos lares e do que se lá passou quando surgiu a pandemia. Foi muito interessante acompanhar as relações que a personagem estabelecia com algumas das pessoas que lá trabalhavam, com os outros residentes e com a sua única filha. 

    Um livro muito bem escrito, que nos sensibiliza à medida que temos contacto com as reflexões da Maria Alberta sobre a velhice, a fragilidade humana e a inevitável chegada da morte que está tão perto: "Setenta pessoas juntas que formam uma família, a caminhar para o final do seu tempo. Um rebanho tresmalhado, sem pastor nem dono. Agora sim, agora que vi o sargento, eu própria me esclareço e compreendo porque deixei cair o saco no chão quando entrei pela primeira vez no patamar do Hotel Paraíso e vislumbrei a sala repleta de pessoas da mesma idade, sentadas lado a lado, com as marcas do tempo gravadas no corpo como se estivessem diante de um relógio que lhes dissesse a cada segundo, menos um, menos um, menos um, aqui nos vamos muito rápido." 

    Uma história triste mas, como diz a sinopse, esperançosa, uma vez que a morte, não é mais do que uma forma de Lídia Jorge exaltar a vida: "Não quero pensar na tristeza e na dor, apenas na alegria, que sendo a mais frágil das três é aquela que me faz viver. Assim, ponho de lado o que pesa e tolhe, e penso na Primavera que trouxe a alegria consigo e com ela forrou as paredes do Hotel Paraíso de paz."

    Leiam que vale a pena!


Sinopse:

Misericórdia é um dos livros mais audaciosos da literatura portuguesa dos últimos tempos. Como a autora consegue que seja ao mesmo tempo brutal e esperançoso, irónico e amável, misto de choro e riso, é uma verdadeira proeza.
Não são necessárias muitas palavras para apresentá-lo – o diário do último ano de vida de uma mulher incorpora no seu relato o fulgor das existências cruzadas num ambiente concentracionário, e transforma-se no testemunho admirável da condição humana.
Isso acontece porque o milagre da literatura está presente. Nos tempos que correm, depois do enfrentamento global de provas tão decisivas para a Humanidade, esperávamos por um livro assim. Lídia Jorge escreveu-o.


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